Imagine que o Paraíso tenha sido descoberto há 500 anos, esteja a apenas 580 km mas que para chegar lá você só vai de veleiro.
É isto o que pensam os cerca de 700 participantes de Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha, organizada pelo Cabanga Iate Clube de Pernambuco.
Tudo é motivo para festa nesta que é a primeira regata oceânica do Brasil. Mas nesta 15ª edição, a desculpa para festejar ainda mais é o aniversário de 500 anos do descobrimento do arquipélago de Fernando de Noronha, templo da natureza para velejadores, mergulhadores, surfistas e adoradores do sol.
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O Skank que perdoe, mas emocionante mesmo é a largada de uma regata. Nesta hora sente-se uma agitação no ar tanto para quem está assistindo e mais ainda para quem está a bordo. Em Recife, começa-se a viver a REFENO quase um mês antes. É curioso ver pessoas comuns, que não entendem nada de vela, comentando e arriscando palpites em ônibus, lojas, bares. Este é um evento de vela já popular na cidade, que participa torcendo para os veleiros pernambucanos.
Em Fernando de Noronha a história não é muito diferente.
Há uma série de fatores que contribuem para que a REFENO seja, dentre todas as provas do circuito náutico, a mais esperada pela população noronhense. “A população fica contando os dias que faltam para os veleiros atracarem aqui. Há uma movimentação intensa durante a regata”, disse o administrador do arquipélago, Edrise Ayres. Ele diz que o turista da competição é diferente daquele que costuma freqüentar a ilha. “São pessoas do mar, que se preocupam com a questão ambiental.”, analisa Ayres. “Além de mexer na economia, a REFENO contribui para o enriquecimento cultural dos moradores locais, pois se trata de uma prova internacional. São muitas pessoas com costumes e gostos diferentes”, afirmou João Paulo Câmara Lins e Mello, coordenador geral do evento.
Números da REFENOEste ano foram inscritas 103 embarcações, com bandeiras de 6 países estrangeiros como África do Sul, França, Inglaterra, EUA, Espanha e Argentina. Destas, 90 largaram no dia 20 de setembro e 75 chegaram a Fernando de Noronha, ainda participando da regata. Os que sofreram avarias foram rebocados, pelos barcos da marinha que acompanham a competição, para portos mais próximos dos locais em que se encontravam.
O percurso entre Recife e o arquipélago de Fernando de Noronha é de 300 milhas náuticas, ou 545 km.
O estado brasileiro com maior número de barcos inscritos foi o Rio de Janeiro com 26 veleiros, seguido de Pernambuco com 22 e São Paulo com 12.
Os parcipantes foram divididos entre as classes IMS, ORC Clube, RGS (A, B, C, D e E), Aberta A e B (para barcos sem classificação), Multicasco A, B, C e D (divisão por comprimento) e Aço. Por causa do grande número de embarcações e classes, o procedimento de largada dura 50 minutos: primeiro largam os “pesadões” de aço e por fim os rápidos catamarãs.
Economicamente a REFENO é um dos eventos mais rentáveis para a ilha, segundo comerciantes e empresários locais. Cerca de U$ 150 mil são deixados em Fernando de Noronha, tanto por velejadores quanto por seus amigos e familiares que circulam na ilha, durante os sete dias de regata. Já em Recife, calcula-se que em torno de US$ 200 mil sejam injetados na economia da cidade através da regata.
Gente do MarA principal característica da REFENO é confraternização. Tanto que existe o Torféu Tartaruga Marinha, para a penúltima embarcação a cruzar a linha de chegada. Apesar de parte dos barcos participantes estar realmente participando de uma competição náutica, e a cada ano o nível técnico dos participantes estar aumentando, a regata, na verdade, é uma grande festa entre amigos. Este ano, cerca de 40% dos barcos inscritos tinham mais de 40 pés.
Pessoas como velejador Gastão Brun, que tinha na tripulação do seu barco, o Forró (monocasco fita azul), Horácio Carabelli Filho, demonstram como o nível técnico e a competitividade na regata aumentaram.
Segundo o Roberto de Barros Mesquita, o Cabinho "a regata, que entrou para o gosto do brasileiro, mudou de espírito, e passou a ser mesmo uma competição".
Mas isto não tira o grande aspecto festivo do evento. Velejadores de todo o país se encontram e trocam figurinhas no píer do Cabanga, nas festas e nos bares.
Pessoas de todos os tipos participam: tem gente que leva o cachorro, tem gente que não quer voar até Fernando de Noronha, tem gente que adora velejar. Histórias do mar de regatistas e cruzeiristas se misturam às expectativas de quem nunca navegou em mar aberto e que escolheu esta regata para a estréia. Mas acima de tudo tem gente curiosa e com muita coragem, porque a experiência de velejar até o arquipélago é mágica e inesquecível. E quem participa quer (e consegue) mesmo é se divertir.
O veleiro Avoante, um Velamar 33, comandado pelo comerciante Nelson Mattos, saiu de Natal para participar da REFENO e demorou 82 horas para chegar em Recife. Mais tempo do que levou para chegar a Fernando de Noronha. O barco já estava sendo chamado de veleiro Boomerang e o comandante de Iô-iô porque retornou a Natal 2 vezes: primeiro foi uma genoa que rasgou, depois o leme quebrou.
O barco era tripulado Lúcia, esposa de Nelson e os amigos Flávio, Lucinha e Pedro. De todos, apenas Flávio já havia feito a travessia. A maior preocupação de Lúcia era com o enjôo, mas depois de 52h20’ todos chegaram sãos, salvos e felicíssimos, pelo 5º lugar na classe RGS D.
Um tipo de tripulante tem causado certa polêmica no meio: crianças pequenas. Alguns defendem a idéia de que levar uma criança num barco pequeno em uma regata noturna é loucura. Mas Karina Hutzler, de 31 anos discorda. Na festa de premiação em Noronha ela recomendou a todos que levassem seus filhos, pois velejar com Marina, sua filha de 1ano e 10 meses, foi uma experiência maravilhosa.
Karina e o marido, Hans Hutzler, 31 anos, consultor em comércio exterior em Recife e com experiência de 25 anos de vela, já estiveram cinco vezes em Noronha, mas decidiram que só voltariam lá com seu próprio barco. Em maio compraram o Delta 26 Aventureiro e equiparam-no para que ficasse mais confortável para a travessia e mais seguro para levar Marina. Cortaram a retranca para a colocação de um bimini e encomendaram uma vela com novo desenho mas sem perder área. Contavam com cintos de segurança para todos, VHF BSC, dois GPS, um Globalstar, 225 litros de água, refeições divididas em geladeiras de isopor para cada dia de viagem, além de muita comida extra.
Marina estava super a vontade a bordo, mas para tão pouca idade, sua história já é bem espantosa: com 33 dias de vida ela foi operada de uma atresia de esôfago e em janeiro último sofreu uma nova cirurgia, agora no coração, por causa de uma CIA - comunicação inter atrial. Muita coisa para alguém tão pequeno.
Para “marinizar” melhor a pequena Marina, que veleja desde os 4 meses, em agosto, o casal resolveu simular uma pequena REFENO: equipou o barco com tudo o que levaria para na regata e tomando o rumo de Fernando de Noronha, 60º, navegou por 150 milhas. Como Marina se mostrou uma boa marinheira, decidiram então que correriam a REFENO 2003 e ela recebeu então seu primeiro troféu: o de tripulante mais jovem.
Já Paulo Saldanha Ventura, comandante do veleiro Curumin, um Main 35 de Recife, acredita que anjos existem e fazem parte da Marinha do Brasil. Seu veleiro perdeu o leme e só conseguiu contato com a marinha através uma ponte pelo rádio com o veleiro Aventureiro. O barco foi socorrido pela corveta Grajaú e durante parte da noite, veleiro e corveta ficaram a deriva. Depois de horas, finalmente fizeram um "empacotamento" do veleiro (quando reboca-se o casco como um todo e não apenas pela proa) e seguiram para Noronha. No dia seguinte, o mestre Santos, da corveta, ajudou na construção de um leme de fortuna para o retorno a Natal. A proa do veleiro ficou destruida, mas a volta ao continente foi garantida, segundo Paulo pelos "anjos da guarda da regata".
E o favorito venceuA grande expectativa da chegada da REFENO não é exatamente sobre quem ganha em classificação, mas quem chega primeiro a Noronha. Este ano o catamarã bahiano Odara foi o fita azul, com tempo real de 25h30', depois de correr uma regata disputadíssima com o trimarã Ave Rara. Esta é a quarta vez que o Odara, de 49', comandado por Manoel Taboada, o Nelito, participa da REFENO.
O Odara largou bem e fez uma ótima velejada. Segundo Nelito, a vitória deveu-se principalmente à preparação do barco em terra e à cautela: "O objetivo é ganhar dentro do espírito de passeio e esportivo. Fazemos tudo para ganhar, mas sem correr riscos e não forçando o barco ao seu limite".
Catamarãs bahianos parecem ser o suplício na vida dos tripulantes do Ave Rara. Esta é a 6ª REFENO de que participam, são hexacampeões na classe Multicasco B mas até hoje não foram fita azul. E olha que a torcida em Recife é toda deles.
Em 2001 e 2002 perderam para o catamarã Adrenalina Pura, de 62', de George Ehrensberger.
Este ano, depois de largar com 26 minutos de atraso, por problemas com o leme, o Ave Rara teve uma excelente recuperação. Por volta das 19h do sábado ficou lado a lado com o Odara. E assim ficaram os dois até a 1h30 da manhã, quando os pernambucanos conseguiu passaram os bahianos e mantiveram-se a frente até as 9h30 do domingo, 21. Próximo da ponta da Sapata, já em Noronha, estavam novamente aparelhados, mas o vento apertou e o punho do gennaker do Ave Rara rasgou. Resultado: os pernambucanos cruzaram a linha de chegada apenas 9 minutos depois do Odara.
O barco, um Tricia 36, de propriedade de Vicente Gallo e Ruy Amorin é tripulado por Pedro Fazio, José Amâncio, Silvio Amorin, Ruy e Guga Peixoto.
Velejador experiente, Guga, é uma unanimidade na REFENO, tanto pela competência quanto pela polêmica. Fez parte da equipe que atravessou o atlântico em 98, Recife-Lisboa-Recife, já participou oito vezes da REFENO e estava trazendo um veleiro de Miami para correr a regata este ano. O tal veleiro teve problemas e acabou ficando em Fortaleza, e por isso quase Guga não larga. Chegou do aeroporto direto para o barco.
Com o atraso na largada, o público se perguntava se o Ave Rara não largaria.
Segundo Ruy Amorin, "esta foi a primeira vez que a REFENO contou com uma chegada tão emocionante. A regata foi decidida na ponta da Sapata." Segundo ele apesar das boas condições de vento e tempo, o que falta ao Ave Rara é patrocínio, pois se o barco estivesse melhor equipado, problemas como os que eles tiveram não existiriam.
PatrocíniosDinheiro é sempre uma solução. A falta dele é problema.
Parecerias com empresas são necessárias tanto para se organizar um evento do porte da REFENO quanto para se participar dele. A inscrição por tripulante custou este ano R$ 180,00 já incluida a discutida taxa de permanência em FN. Considere ainda o custo de preparação de uma embarcação: equipamentos, velas, manutenção, alimentação, uniformes, etc.
Segundo João Paulo Câmara Lins e Mello, o J.P., coordenador da REFENO desde 2002, o custo do evento este ano ficou em torno de R$ 350 mil. Na sua opinião, a dificuldade para a viabilização do evento se deu por causa da instabilidade econômica do país. Apesar de ter se antecipado na organização, a coordenção só conseguiu a confirmação de alguns dos patrocinadores após a votação da lei da previdência.
Ele também imputa à situação político-econômica mundial o número reduzido de embarcações estrangeiras.
Já para os barcos, vale a persistência. O veleiro Avoante, por exemplo conseguiu, através de conhecimentos pessoais os uniformes e a alimentação. As meninas do Drifter, orçaram o projeto para ir a REFENO em R$ 50 mil, enxugaram custos e chegaram a R$ 35 mil. Destes, 40% foram patrocinados e o restante saiu do próprio bolso.
Uma outra forma de viabilizar a entrada na regata é através do charter. Pode ser uma boa experiência ou uma "bad trip" já que a convivência a bordo pode vir a se tornar uma situação delicada.
O valor para uma vaga num barco que faz charter chega a R$ 1.400,00, ida e volta.
Segundo João Eudes Nunes, de Brasília, seu dinheiro foi muito bem empregado. Ele, que nunca havia velejado em alto mar, participou da regata no veleiro Jamaluce e adorou.
Mas é bom lembrar que no meio do oceano, num espaço pequeno e com pessoas desconhecidas, o risco de um conflito é grande.
Luluzinhas no clube do Bolinha"Mulher em barco dá azar". Esta é uma brincadeira de humor duvidoso que corre no meio.
Bom, se assim fosse o veleiro Drifter, comandado por Christina Fracari, não teria nem chegado a Recife. Mas chegou a Fernando de Noronha!
Com uma tripulação formada por oito mulheres, o Drifter, sem sombra de dúvida era o barco mais comentado desta 15ª REFENO. Mulher chama atenção em qualquer lugar, ainda mais num meio dominado por homens como é o náutico. Além do charme, beleza, delicadeza das meninas ainda tem o aspecto de estarem exercendo uma atividade também de força.
A história das meninas começou no Natal do ano passado quando Christina e sua cunhada Liliana tiveram a idéia de correr a REFENO com uma tripulação feminina. Velejadoras experientes do Lago Paranoá, em Brasília, convidaram então outras amigas e adversárias de raia para formar a tripulação. Com idades que variando entre 27 a 54 anos, vieram então Celina, Vania, Iara, Tatiana, Rossana e Sandra. Todas velejam: de microtoner, de Delta 21, windsurf, snipe, 470, star... Pode escolher. Tem médica, advogada, arquiteta, especialista em marketing, contadora, agrônoma, engenheira civil. Apesar de nem todas terem velejado em mar aberto, estavam preparadas para a aventura: depois que decidiram correr a regata, todas tiraram a carta de mestre. Exigência de equipe: "não basta saber velejar, tem que saber navegar". E elas sabem. Em Brasília, competem em nível de igualdade com os próprios maridos.
Sem dúvida este era o barco que a tripulação mais nivelada no aspecto de habilitação e com todas as cartas náuticas necessárias desde Salvador, já que o barco foi alugado lá.
Os maridos, a princípio, torceram um pouco os narizes, mas acabaram concordando "porque era um barco só de mulheres".
Contaram com a ajuda de um treinador, tiveram personal trainer que cuidou do condicionamento físico e tinham 4 GPS a bordo. Os uniformes foram cedidos pelo Iate Clube de Brasília, onde todas velejam.
Segundo elas, fizeram uma regata tranquila por terem estudado muito o trajeto, não tiveram acidentes durante o percurso e tudo ocorreu melhor do que o esperado. Tudo bem, nem tudo são flores num barco de meninas: todas enjoaram... algumas mais outras menos. Por um problema na instalação elétrica do barco, que já existia desde Salvador, também ficaram sem motor e sem bateria. Isso significa, sem rádio também. Chegaram em Fernando de Noronha com um rádio de mão quase morrendo. Poderiam ter pedido ajuda, desistido, mas foram até o fim.
Assim como o estigma de mulher no volante, elas sentem que os homens ficam mais atentos aos erros delas para poderem falar depois e sentem falta dos parabéns quando ganham. Mas isto não gera nenhum atrito.
Para a tripulação, o maior desafio era a convivência a bordo: consciência de que numa condição anormal de temperatura, pressão e espaço, os aborrecimentos podem vir mais depressa. Para elas, o stress técnico acontece mais entre os homens: entre mulheres o stress pode ocorrer em atitudes. Nada disso ocorreu. No final, acharam gratificante o espírito de união da equipe e se surpreenderam com a própria "aventura do desconhecido". Mas confessaram que só sentiram falta dos homens na hora de adriçar a grande.
Futuro da REFENOA preparação de um evento como a REFENO começa seis meses antes. Elaboração de plano estratégico, prospecção de patrocinadores, busca de parcerias, confecção de kits, tudo tem que ser feito com antecedência.
Este ano a regata contou com o patrocínio da EMBRATUR, CELPE (Companhia Energética de Pernambuco), PETROBRAS, Baterias Moura, além de parcerias com AGEMAR, OPTLAMP, TRIP Linhas Aéreas, Netuno Pescados, CHESF (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), Hospital Esperança, além de contar com o apoio da Marinha do Brasil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Governo do Estado, Prefeitura de Recife, Capitania dos Portos de Pernambuco, Porto de Recife, que libera a área do porto para a largada da regata e da Pernambuco Pilot que deixa de cobrar os custos de manobra dos navios da área do porto.
A medida que eram captados os recursos, a programação do evento ia sendo definida.
A idéia para o próximo ano é popularizar ainda mais o evento e levar para o Terminal de Passageiros do Porto de Recife o quer será o Festival REFENO. "A regata assim passará a ser o principal evento dentro do Festival. Palestras, simpósios, feira náutica, shows, serão abertos a população o que fará com que mais pessoas passem a se interessar pelo esporte", J.P. Segundo ele, a REFENO é o grande alavancador das flotilha do Nordeste do país. A flotilha de Pernambuco cresceu 150% nos últimos 3 anos por causa da regata e a idéia e que com a sua maior divulgação este crescimento continue ocorrendo.
revista Velejar e Meio Ambiente - ed. 12 - 2003