14.2.06

A fragilidade do Velho Chico.


Apesar de todos os grandes números que caracterizam o Rio São Francisco, a natureza luta bravamente com o homem para que ele continue a ter vida. O rio da integração nacional, que no passado servia como via de escoamento de produtos industrializados, hoje vive uma história de descuidos e preocupação.
Terceiro maior rio em extensão do Brasil, com 3.167 km, 640 mil km² de bacia hidrográfica, o São Francisco banha 9% dos municípios brasileiros, ao atravessar cinco Estados. São 13 milhões de pessoas vivendo às suas margens e muitas delas tentando ainda sobreviver de seus recursos.
No baixo São Francisco os reflexos da intervenção humana são percebidos nas cidades ribeirinhas, onde a população sofre com o assoreamento provocado principalmente pela construção das sete barragens hidrelétricas que provém energia para todo o nordeste e parte de Minas Gerais. O regime das águas ficou prejudicado e trechos do rio, que no passado recebiam navios de pequeno porte, hoje não comportam nem mesmo pequenas embarcações, com 60 cm de calado, devido aos inúmeros bancos de areia. Isso sem falar na quase total extinção das lavouras de arroz e na diminuição de peixes, já que as barragens acabaram com as cheias naturais do rio, que depois que passavam proporcionavam a “fartura”.
Os persistentes pescadores da região contam que surubim, tubarana, caranha, agulhão, pirambeba, entre outros, são peixes que já não se encontram mais nas águas do velho Chico devido à diminuição de água doce próximo a foz, onde em 94 o mar “engoliu” o povoado de Cabeço, levando embora as casas e parte da vida dos moradores. Além disso, o aparecimento de espécies exóticas à região, como o voraz tucunaré, o bagre e a tainha, também acelerou o processo de desaparecimento das espécies nativas.
A exploração econômica às margens do São Francisco acarreta ainda outros problemas: o desmatamento, que causa a erosão e enormes voçorocas, e a poluição contribuem para o processo de empobrecimento da população e para o gradativo fim da pesca artesanal. Em “compensação”, crescem os grandes empreendimentos pesqueiros, como por exemplo da tilápia (espécie exótica), que não têm licencimento do Ministério do Meio Ambiente e que não trazem grandes benefícios para a população local.
E agora, para completar, a população do Baixo São Francisco, mesmo sem ter sido consultada, ainda tem que se preocupar com a tal da Transposição...

www.marsemfim.com.br dezembro 05

11.12.05

Refeno 2005: Festa pernambucana com tempero baiano



Quando ele entra na raia não tem pra ninguém: o catamarã baiano Adrenalina Pura, de George Ehrensperger, confirmando seu favoritismo, mais uma vez foi Fita Azul na 18ª edição da Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha. Do alto de seus 63' e com ventos de SE de até 17 nós, a máquina-de-vencer-Refeno, ainda não conseguiu bater seu próprio recorde da travessia que é de pouco mais de 15 horas, mas este ano realizou o percurso em 19h19min51seg.
Na volta para a casa, como era de se esperar, o Adrenalina também foi Fita Azul na regata Noronha-Salvador.
Já para os pernambucanos do Ave Rara, campeões no ano passado, a vida não foi tão fácil. Apesar de ser o vencedor na classe Multicasco C, o trimarã teve problemas no início da noite do dia 24: com a vela grande rasgada, voltaram a Cabedelo, litoral da Paraíba, para um reparo e só saíram às 3 da manhã. Como se não bastasse, a 160 milhas de Noronha o eixo da cana de leme quebrou e eles continuaram a travessia com um leme de fortuna. Apesar dos contratempos e do ânimo um pouco abalado, para afastar a decepção eles seguiram contando piadas e fazendo o que sabem de melhor: velejar. A tripulação formada pelo campeão mundial de hobbie cat 16, Cláudio Cardoso e por Guga Peixoto, Pedro de Fazio, Ruy Amorin e Paulo Ferreira cruzou a linha de chegada no Boldró com tempo de 35h21min. Com tudo arrumado na volta, o Ave Rara foi Fita Azul na regata Noronha-João Pessoa.

O segundo veleiro a chegar em Fernando de Noronha foi o monocasco argentino Rafaela, um Hork 56' que fez o tempo de 34h30min.
Este ano, 108 veleiros partiram do Marco Zero da cidade do Recife para percorrer as 300 milhas que separam o continente do arquipélago. Barcos de 14 estados brasileiros, entre eles Rio de Janeiro, Bahia, Brasília, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paraíba e São Paulo e de outros países, como Estados Unidos, Espanha e França, Argentina e Inglaterra entre outros.

A segurança na Refeno é um assunto levado a sério: ainda em Recife os barcos são inspecionados pela Marinha. No mar, os barcos contam com o apoio de dois barcos da Marinha que acompanham a regata e prestam socorro em caso de necessidade. Foi o que aconteceu com o veleiro Sampa que recebeu socorro do navio Graúna quando teve duas porcas que seguram o mastro quebradas e o cabo da genoa enroscado no hélice a aproximadamente 100 milhas de Noronha. Segundo André Gomes Cardoso, comandante do barco, "o jeito foi aguardar o reboque da Marinha que foi excelente: um show de competência e tudo sem um arranhão sequer no barco". Além disso são realizadas duas chamadas diárias via rádio durante toda a travessia. E claro, não pode ser esquecida a solidariedade entre os velejadores que estão sempre prontos a prestar socorro aos outros barcos.

Além da regata em si, a Refeno, ou melhor, o Festival Refeno conta também com uma feira que reune expositores náuticos no Terminal de Passageiros do Porto de Recife e ainda com uma série de palestras realizadas nos salões do Cabanga. Este ano, um dos palestrantes foi o médico cirurgião Fábio Tozzi que falou sobre Medicina de Bordo e Sobrevivência no Mar e Antartica à Vela. Fábio, que já esteve seis vezes na Antartica, sendo duas delas no Paratii II de Amyr Klink, participou pela primeira vez da Refeno com o seu próprio barco, o Kuarup e levou 53 horas para completar o trajeto. Em Noronha ele elogiou a organização, divulgação e segurança do evento. Agora ele segue com o Kuarup para a Amazônia onde pretende ficar navegando entre o Amazonas e o Rio Negro por um ano e meio pelo Projeto Brasil a Vela.



Na verdade, a Refeno é uma grande festa que reune vários tipos de velejadores numa descontraída e alegre competição. Como disse o comandante do VMAX , Khan Chu "a grande vitória da Refeno não é chegar em primeiro, mas sim chegar a Noronha". Amigos se reencontram, trocam histórias do mar, recebem notícias de outros lugares e se divertem nos encontros e festas no Cabanga ou na Ilha. A maior parte dos barcos que participam do evento são barcos de cruzeiro. Alguns com famílias a bordo, outros levam seus animais de estimação, outros encontram ainda uma forma de reunir amigos para passarem alguns dias velejando e jogando conversa fora. Tem prêmio prá todo mundo: desde para a tripulação com maior média etária (Troféu Barco a Velho) até para o penúltimo colocado (Troféu Tartaruga Marinha). Quem não recebe troféu tem como recompensa o visual maravilhoso de Fernando de Noronha, com suas águas quentes e cristalinas. Além do mais não falta festa, happy-hour, churrasco, forró...
Para não voltar sozinho e continuar no clima de festa, pode-se escolher entre a regata Noronha-Salvador, organizada pelo Centro Náutico da Bahia, o rally Fenore (entre Noronha e Recife), a Regata Noronha-Natal e a novíssima Regata Noronha-João Pessoa, promovida pelo Iate Clube da Paraíba que neste primeiro ano já contou com quase 60 barcos, divididos em oito categorias, logo na estréia.

O espírito da Refeno é este: chegar ao paraíso com uma pontinha de adrenalina e emoção e curtir a vida. Vale a pena participar desta festa. Pergunte a quem já foi: setembro é o melhor mês para ir a Fernando de Noronha.

Elucubrações 5: Tenha paciência!



Hoje em dia é quase que obrigatório sermos tolerantes e pacientes com as pessoas e situações cotidianas para vivermos com um mínimo de harmonia.

O mundo seria muito mais tranqüilo se os povos agissem e pensassem com um pouco mais de discernimento e aceitação pelas diferenças. Por que as guerras começam? Uma das expressões que mais me causaram assombro é “limpeza étnica”: como pode um povo querer exterminar outro, limpando-o da face da Terra, por suas diferenças raciais ou religiosas? As pessoas devem ter o direito de fazer suas próprias escolhas, (religiosas, políticas ou sexuais) sem ter medo das reações alheias.

Acho que o extremo da falta de paciência é a intolerância. Admito: ser paciente não é exatamente o meu forte e tenho lido muito sobre isso. Algumas dessas leituras me fizeram pensar muito e me empenhar mais em tentar manter a calma e controlar meus impulsos de irritação. É um exercício difícil que requer muita dedicação, disciplina e auto-controle, mas para que nossa vida siga um caminho mais satisfatório, é necessário uma dieta mais rica em “sapos”. Afinal, nossa paciência e tolerância são testadas diariamente.

Ter paciência significa esperar pelo infinito, requer coragem e muita prática. Paciência é a capacidade de conciliar e perceber o ponto de vista do outro. Ela nos ensina a respeitar o ritmo alheio sem irritação e exigências injustas e nos permite manter a perspectiva. No instante em que nos irritamos com alguém pensamos somente em nós e não avaliamos por outro ângulo as outras possibilidades da situação. Não é fácil, porque quando a perdemos a paciência, nosso lado racional está totalmente encurralado pelo emocional, que vira um monstro e sai destruindo tudo pela frente. É devastador. Quando controlamos estas explosões emocionais ficamos mais próximos do prazer de buscarmos nossa melhor atuação como pessoas.

A paciência nasce do convívio. Se fôssemos ermitãos não precisaríamos exercitá-la com outras pessoas, mas vivemos em sociedade, nos relacionamos diariamente e todos têm suas diferenças. Por isso, cuidado é fundamental porque o arrependimento bate e é normal criarmos um relacionamento áspero justamente com as pessoas que mais gostaríamos de estar bem. E recolher a água que caiu fora do tanque é quase impossível!

Cada pessoa ou situação tem seu próprio tempo, independente da nossa vontade. A demora não é negação, mas parte do processo de “assentamento” das coisas, e às vezes pode significar uma lição importante sobre escolhas e responsabilidades. Mas não há nada mais irritante do que a sensação de vida estagnada, situação mal resolvida, tempo adiado...

Segundo o Dalai Lama, “a paciência e a tolerância derivam da capacidade de permanecer firme e inabalável, de não se deixar sufocar pelas situações ou condições adversas. Praticar a paciência seria um exercício vazio se não fosse a compaixão. É ela que dá força e razão de ser para nossa vontade de melhorar e contribuir para um mundo melhor”.

Correio do Litoral - 2004

Elucubrações 4: Tecnologia e falhas de comunicação


Na minha opinião, a internet como meio de comunicação é um dos melhores sistemas tecnológicos já desenvolvidos pelo homem. É a maneira mais eficiente para se encontrar pessoas de quem nos separamos durante a vida. Não e maravilhoso um dia receber uma mensagem daquele amigo de infância que você achou que tinha perdido contato e que nunca mais veria? E que tal receber uma mensagem carinhosa da pessoa que se ama logo pela manhã? Isso tudo sem falar na agilidade em receber informações que antes demoravam dias para chegar e que hoje quase que nos atropelam na telinha.

Mas também é IMPRESSIONATE quantos mal entendidos um simples email pode gerar. Me lembro quase que diariamente das aulas de Teoria da Comunicação, onde ouvi falar de um canadense chamado Marshall MacLuhan, criador da frase (e do conceito) “o meio é a mensagem”, que disse que se a mensagem não é bem entendida, o erro deve ter partido emissor ou do receptor desta mensagem. Claro que isto é uma abordagem superficial do problema. Outros lingüistas incorporaram outros elementos ao processo da comunicação, além do “emissor”, “mensagem” e “receptor”: o “código”, ou seja a língua (mas não no sentido de idioma apenas); o “contato”, ou seja o canal físico e conexão psicológica entre remetente e destinatário, que capacita a ambos entrarem e permanecerem em comunicação; e o “contexto”. Ok, ok... já vou parar com a chatisse teórica. Mas estes conceitos têm a ver com o que quero falar...

É mais ou menos assim: quando estamos na frente do computador escrevendo, não estamos de frente para a pessoa com quem estamos conversando. Podemos estar descabelados, com sono, sem paciência, ou sem tempo, tensos, pensando em outras coisas. É diferente quando se está frente a frente com o outro. Então, podemos receber uma mensagem, como por exemplo um convite, escrito por uma pessoa que estava alegre, em paz, de bom humor. E se por qualquer motivo não estamos na mesma sintonia do emissor desta mensagem, podemos respondê-la de forma brusca, fria ou seca. Esta resposta então poderá ser entendida como uma agressão e poderá voltar de uma forma triste, ofendida ou irritada. Pronto, está armada a confusão. Uma coisa que era para ser boa vira uma discussão com final imprevisível.

Às vezes, as pessoas acham que falam a mesma língua, mas estão tão fora de sintonia que não há meio de se entenderem. Aí então, sem o contato, complica tudo: canal físico deficiente, que não permite que as pessoas se olhem ou pelo menos ouçam as entonações e timbres da fala, mais a tal da conexão psicológica abalada, se já não se fala a mesma língua, é meio passo para a comunicação ir para o vinagre. Para completar, se o contexto anda meio gelatinoso, temos então um convite para o desastre total. Indo a extremos, guerras podem começar, relacionamentos podem acabar, amizades podem ser destruídas. Tudo por falha na comunicação.

Ainda acho que nada substitui uma boa conversa ao vivo...

Correio do Litoral - 2004

Elucubrações 3: Mudando de idéia



Viver “corretamente” é viver a vida toda com as mesmas opiniões?
Afinal, somos criadas ouvindo que pessoas corretas têm opiniões firmes, coerentes e muito bem fundamentadas. Mas fundamentas em quê?

Valores e princípios são elementos fundamentais na formação da personalidade e caráter do indíviduo. A maioria é passada pelos pais, ainda nos primeiros anos de vida. Verdade, honestidade, respeito são proclamados como os pilares para uma vida aceitável dentro da sociedade. Mas o mundo muda e se nos fixarmos demais em idéias cristalizadas pré-estabelecidas, uma hora nos sentiremos imobilizados e desatualizados. Temos de tentar ser flexíveis sem deixar de lado nossa essência. Não vamos aqui falar sobre políticos.

Durante a adolescência nos sentimos confusos, questionamos conceitos e passamos a formar os nossos próprios. Considerem-se ainda as dúvidas que nos atormentam nesta fase da vida, que pode ser ao mesmo tempo extremamente rica e dolorosa.

Por exemplo, os pais ensinam ao filho durante a vida toda que mentir é errado, ruim, desonesto, feio, abominável. Mas certo dia mentem para ele, seja lá por que motivo. Como este filho vai lidar com isto? Entender as razões, refletir e perdoar é difícil, mas isto vai fazer parte da formação de sua personalidade. O exemplo poderia ser sobre jogar lixo no chão ou a violência na sociedade: “sou contra armas, mas adoro ver um filmezinho hollywoodiano com bastante tiro e pancada”. Complicado, não? Quais eram mesmo os valores que você queria transmitir ao seu filho?

Mas e então, dá pra mudar a idéia? No exemplo acima, você já mudou. Melhor então repensar a atitude. Dá pra mudar de novo? Ainda bem que sim.

O ser humano erra todo dia: é intransigente, briguento, dissimulado ou mesmo omisso. Nem todo dia reconhece que errou. Mas quando isso acontece o sentimento pode ser uma mistura de sensação de crescimento com um pouco de frustração por ter errado. Fazer o quê: a evolução é realizada através do reconhecimento e da mudança da atitude. Difícil prá caramba!

Meu trabalho é baseado na observação. Claro que não tenho que abandonar minhas idéias toda vez que alguém comenta ou sugere alguma coisa sobre ele, mas fico encantada quando a idéia de outra pessoa ajuda a melhorar o produto final. É enriquecedor.

Pessoas são criadas de maneiras distintas e têm essências diversas. No trabalho convivemos com pessoas de ritmos, posturas e convicções diferentes das nossas. Num casal existe ainda o elemento “sentimento” a ser administrado. Mas quando não concordamos com alguma coisa, devemos desistir de cara ou tentar adaptar a situação às nossas convicções? O jeito é colocar na balança e ver o que é mais importante, porque nada precisa necessariamente ser prá sempre do mesmo jeito.

Pessoas são diferentes. Mudar de idéia, eliminar “pré-conceitos” e tentar encarar a vida de outra forma é crescer. Se não prejudicarmos ninguém, podemos mudar sempre. E só esta consciência já torna a vida mais fácil.

Correio do Litoral - 2004

Elucubrações 2: Viver por inteiro ou pela metade?



Diariamente encaramos novos desafios. Começar um novo dia é um ato que exige disposição e coragem: matamos um leão todo dia. Quem já não teve, antes de sair da cama quentinha, o pensamento rebelde: “hoje eu não vou”. Mas depois, pesando as responsabilidades, decide: “tá bom... mas amanhã não vou mesmo!”. Na época da faculdade, durante o inverno, esta era a minha maior vontade: deixar a preguiça vencer a responsabilidade e “matar aula” um dia. Sempre deixava para amanhã e nunca tive a coragem de deliberadamente ficar dormindo.

Segundo o psicanalista Jorge Forbes, o estress é gerado pelas inúmeras opções que se tem diante das situações. Quanto mais opções, maior o estress. O número de emails recebidos por uma pessoa que trabalha numa grande empresa, por exemplo, gera estress porque, entre as mensagens de trabalho, spams, piadinhas e bilhetes de amigos, a pessoa tem que escolher o que ler, responder ou jogar fora primeiro. Parece exagero, mas pense bem: mal ou bem temos que tomar várias decisões durante o dia que nos estressam, em maior ou menor grau.

E o que fazer quando, pior do que escolher mensagens para jogar fora, nossa decisão interfere na vida dos outros? Será que temos o direito de pensar somente em nós ou apenas o dever de considerar os outros? De uma forma ou de outra, temos que estar conscientes das consequências que tal decisão pode gerar. Nem sempre escolher o mais fácil é a melhor solução. Ou a mais justa. Quando envolve terceiros, tão importante quanto a decisão em si é a forma com que ela é exposta, pois o estrago pode ser pior do que o esperado.

Acredito que a vida é fácil e somos nós quem a complicamos. Mas isto não significa que devemos sempre escolher os caminhos mais fáceis. Geralmente a trilha que dá menos trabalho nos leva a uma vida morna, meio mais ou menos. Uma vida menos prazeirosa. E aí, não precisamos da coragem para passar por ela porque vamos sempre nos esquivar da vida com energia, brilho, intensidade... Ao invés de matarmos o leão, apenas apagamos sonhos. Para alguns quando a vida começa a ficar muito colorida, divertida, emocionante é hora de torná-la novamente tranquilinha, pastel, sem sal. É o medo de viver intensamente, de viver por inteiro, com emoção. Em vez de correr o risco de se ter o melhor, opta-se pela segurança da mesmice.

Quantas pessoas não levam uma vida morna, num emprego frustrante, num relacionamento insoso por se sentir mais seguro no que já conhece? E quantas outras, com a chance de um emprego melhor, ganhando mais, num cargo mais prazeiroso não decidem continuar com o que têm, pelo medo de novo? Ou ainda, num relacionamento onde existe emoção, carinho e intensidade, um belo dia resolve-se pelo afastamento porque “isto está ficando muito sério” ou porque a preguiça para ajustar as eventuais diferenças é maior? Olhe ao redor e note que as pessoas que optam pelo mais fácil reclamam mais da vida, se lamentam mais e brilham menos. Já as que arriscam, choram mais, gritam mais, mas também riem mais. É que apesar das dores causadas pelos tombos das escolhas, continuam acreditando que melhor do que deixar a vida passar por elas é vivê-la por inteiro.

Correio do Litoral - 2004

Elucubrações 1: Orgulho e preconceito



Este é o título de um clássico da literatura inglesa, escrito por Jane Austen em 1813. Apesar de quase duzentos anos terem-se passado, o título reflete comportamentos observados até hoje.

O romance é sobre uma moça de “classe média” da época, que se relaciona com um rapaz da alta aristocracia inglesa. O relacionamento começa de maneira desastrosa já que cada um tem como hábito julgar o outro, seja por influência de terceiros, seja por uma característica própria de sua personalidade. É claro que tudo isto os leva a uma série de desencontros até que um belo dia descobrem-se perdidamente apaixonados. Historinha bem água-com-açúcar com final feliz. Ainda bem!

E o que isso tem a ver com a gente, hoje em dia? Bom, segundo minhas observações nós bem que ainda vivemos uma sociedade onde orgulho e preconceito continuam presentes. Hoje em dia de maneira mais disfarçada, mas ainda existentes.

O que mais me deixa indignada é quando estes hábitos são apresentados de forma velada. Não existe nada mais feio do que ter um hábito desagradável e tentar torna-lo “bonito” através de uma maquiagem mal feita. Por exemplo: domingo passei em frente a televisão na hora do Faustão e tinha lá alguns artistas novos que vêm de favelas do Rio de Janeiro. Agora é mania no programa trazer estes atores músicos e tais e mostrá-los assim de forma “olha-só-como-a-gente-é-legal-dando-oportunidade-prá-favelado”. Feio! Parece que estão colocando estas pessoas em jaulas e expondo-as no circo. É uma pasteurização típica, ou seja: “fulano é diferente? Incomoda? Então vamos trazê-lo para o nosso lado e aí ele não terá mais como nos incomodar, porque aí vira da casa.” Eles são bons? Ótimo! Reconheça a competência e o talento da pessoa e não fique elevando a sua origem, que neste caso não tem a menor importância. Não precisa falar toda hora “Nossa, fulano, veio de lugar tal, está aqui na TV apesar da vida difícil que teve”. Isso é uma forma velada de preconceito sim, como que dizendo: “eu, que tive uma vida mais fácil sou o dono da verdade, e esta pessoa, aqui do meu lado ainda pode ser como eu...” É ou não bem caso de “orgulho e preconceito”?

Não gosto de falar em política ou de políticos, mas vereador, prefeito e por aí afora são pessoas como eu ou você. Ninguém é melhor do que ninguém. Nem pior... Se alguns ocupam ocupações públicas é porque escolheram, ou deveriam ter escolhido, melhorar o lugar em que vivem, contribuir para o desenvolvimento do município, apoiar com a comunidade. E nós somos a sociedade. Portanto, uma pessoa eleita por nós para ocupar um cargo público, não é superior a ninguém. Pessoas que se transformam com o “poder” não são pessoas tão bem intencionadas assim

“Autoridade” é uma pessoa que entende muito de um determinado assunto. Autoridade, que muitas vezes não sabe nem falar e escrever direito, não é autoridade. E político é só mais um cidadão que por acaso ocupa um cargo público. Mas existem alguns que se acham!

Correio do Litoral - 2004

Eldorado Brasilis: Tangaroa vence a mais difícil regata oceânica brasileira


É necessário percorrer 1.260 milhas para se chegar à exótica Ilha de Trindade a partir de Vitória, mas apesar da distância e das dificuldades, quem completa a prova assegura que vale a pena.

Parece que a bruxa estava solta nesta 6ª edição da regata Eldorado Brasilis que partiu de Vitória até a ilha de Trindade, num trajeto de 630 milhas. Dos onze barcos pré-inscritos apenas quatro largaram no sábado, 16 de janeiro e apenas dois completaram a prova. Mas para os participantes a emoção e a expectativa são as mesmas sentidas quando o número de barcos é maior, já que a prova além de gerar nos velejadores a ansiedade por chegar ao ponto mais distante do continente brasileiro, testa também os limites de cada um. A preparação para a regata começa muitos meses antes da largada: ajustes dos barcos, revisão de equipamentos, planejamento de abastecimento para comida, água e combustível, escolha da tripulação, etc. A prova pode durar de 5 a 15 dias, dependendo do barco e das condições de vento e mar. Enjôos e estresse podem abalar o moral da equipe e nestas horas o que conta mesmo é a solidariedade entre a tripulação e também entre os barcos competidores. No ano passado, ventos de 35 nós e ondas de até 5 metros fizeram com que logo depois da largada 3 barcos retornassem ao Iate Clube do Espírito Santo. Sem dúvida nenhuma, esta é uma regata imprevisível.
A grande expectativa nesta edição era a quebra do recorde que foi conquistado pelo veleiro Sorsa, comandado pelo campeão olímpico em Moscou Eduardo Penido, que no ano passado concluiu o percurso em 174 horas. Este ano, as fichas eram apostadas no veleiro Galileo, o Open 60 comandado por Walter Coronado Antunes.
O Galileo, que levou 14 meses para ser construído, era aguardado com grande expectativa, já que seria o maior barco da competição e uma máquina de velocidade. Fabricado em fibra de carbono, com um mastro de 26 metros de altura e área vélica de 170 m², o barco que custou R$ 2 milhões, saiu do estaleiro, em Maceió, no dia 9 de janeiro e seguiu direto para Vitória. Chegou na madrugada do sábado e durante toda a manhã aguardou a chegada das talas da vela grande, enviadas de São Paulo. Pouco antes da largada o barco, que tem calado de 4,70 m, encalhou na entrada do clube e foi então detectado um problema na quilha. A largada para ele foi então adiada para o ano que vem, na 7ª edição da regata.
Na sexta feira, as embarcações foram apresentadas à população capixaba na tradicional Volta da Taputera. Todos os veleiros participantes atravessam o porto e as praias do centro da cidade para um desfile. É também a hora para os últimos ajustes e reparos antes da largada.
Ao meio dia do sábado, com vento fraco os veleiros Tangaroa I, Farasan, Kanaloa e Poesia deram início à aventura. O Tangaroa, do comandante Francisco Bendiaga Hickman, fez uma boa largada e manteve a liderança da regata até o fim. Foi o primeiro a chegar em Trindade cinco dias depois da largada e seus tripulantes ainda tiveram tempo para aproveitar o dia na Ilha de Martin Vaz, a 30 milhas de Trindade.
O Kanaloa, de José Benendito Torres Pinto, foi o outro barco a completar a regata. Participou de todas as edições da regata desde 2001 e este ano a única mulher participante da corrida, Catarina Robert, estava nele.
As primeiras 100 milhas do percurso normalmente são as mais cansativas, já que as baixas profundidades da plataforma continental e o vento fazem com que o mar fique picado, com muitas ondas o que torna a navegação difícil e a vida a bordo desconfortável. Depois as profundidades aumentam para até 5 mil metros, a água adquire um tom de azul indescritível, quase violeta e a velejada fica então mais estável.
Depois de mais de sete horas velejando num contra vento forte, as velas do Farasan ficaram muito deformadas e começaram a rasgar em alguns pontos. Em reunião com a tripulação, o comandante Fernando Junqueira resolveu retornar ao clube. Ele porém lamenta o pequeno número de embarcações participantes já que não houve realmente uma disputa entre os barcos porque cada um estava correndo em uma classe diferente. Para Fernando isto desestimulou um pouco a equipe.
Outro barco que teve problemas foi o Poesia, que levava na tripulação o juiz da regata, Dionísio Sulzbec, e que também tinha como objetivo prestar assistência aos demais participantes da corrida. Esta a ajuda faz parte do Projeto Assistência, de Luiz Poesia, que presta socorro gratuito à participantes de várias regatas no litoral brasileiro. Como voluntário do projeto, o Poesia contou com o médico Luiz Antonio Santana para o caso de alguma eventualidade médica. Mas no início da noite da terça feira, a 360 milhas de Trindade, o mastro do Poesia quebrou e o comandante decidiu retornar a Vitória, usando duas velas pequenas. Chegaram no sábado e foram recebidos com festa e champanhe. Para o ano que vem, Luiz Poesia pretende voltar com um catamarã de 50 pés: "Não quero ficar pelo segundo ano consecutivo no meio do caminho, entre Vitória e a Ilha de Trindade. Por isso, vou trabalhar bastante para estrear um barco novo, mais rápido e confortável em 2006".
A sexta edição da Regata Eldorado Brasilis foi idealizada e realizada pela Rádio Eldorado de São Paulo, com patrocínio da Porto Seguro Seguros, Cenoura & Bronze e Ameni Legalização Imobiliária, em parceria com a Marinha do Brasil, Iate Clube do Espírito Santo, Federação Capixaba de Iatismo e as empresas que compõem o Grupo Estado. Parte das despesas dos barcos participantes são subsidiadas pela Prefeitura Municipal de Vitória que oferece uma ajuda de custo. Este ano, o atraso na confirmação desta verba também influiu no tamanho reduzido da flotilha.
Quando foi lançada em 2000, seis veleiros participaram da Eldorado Brasilis. Na edição seguinte, foram nove veleiros. Em 2004, dezessete.

revista Mar & Mar - ed. 42 - 2005

É FI-TA-ZUL!!!!

Pela primeira vez desde que começou a participar da REFENO, há sete anos, o trimarã pernambucano Ave Rara é o primeiro veleiro a cruzar a linha de chegada em Fernando de Noronha.



Depois de anos perseguindo a Fita Azul da Regata Recife-Fernando de Noronha, finalmente os tripulantes do Ave Rara atingiram seu objetivo maior: chegar na frente. Foram 25h43min desde a largada no dia 25 de setembro em frente ao Marco Zero da cidade de Recife. A torcida que vibrou na largada teve a mesma alegria que aquela que esperava em Fernando de Noronha. Afinal nos últimos seis anos os pernambucanos esperavam ansiosos pela vitória sobre os bahianos, suplício de suas vidas nesta regata. No ano passado, depois largar 26 minutos atrasado por problemas no leme, chegaram na frente do catamarã Odara na ponta da Sapata, o punho da genaker estourou e acabaram chegando 9 minutos atrás dos bahianos.
Este ano foi mais “tranqüilo”: apenas se enroscaram num espinhel e tiveram o cunho do genaker (sempre o genaker) estourado. Mas graças aos patrocínios e ao novíssimo jogo de velas esta era a hora e a vez do Ave Rara.
No mirante do Boldró, onde estava instalada a comissão de regata, sentiu-se um certo desapontamento quando o Odara comunicou sua posição a 43 milhas da Ponta da Sapata. Na primeira tentativa de comunicação via rádio com o Ave Rara não houve resposta, e se pensou que ele estivesse muito atrás dos bahianos. Três horas depois da comemorada vitória, um Comandante Guga Peixoto exausto explicava que como toda a tripulação fica no cockpit e a cabine é lacrada para que não entre água, ninguém ouviu o rádio. E assim, a alegria para quem estava em terra foi ainda mais emocionada. Segundo Guga, comandante a alma do Ave Rara, “o barco é bom e anda muito, mas é punk”, já que a velejada é cansativa e exige muito de todos a bordo. Para se ter uma idéia, eles depois que o vento entrou forte, eles “voaram” a uma média de 19 nós. E com mar picado.

O crescimento da REFENO
Esta 16ª edição da REFENO contou com várias inovações. No Terminal de Passageiros do porto de Recife foi realizado o Festival REFENO que durante uma semana exibiu uma feira onde reuniram-se quinze expositores náuticos, em stands de estaleiros, oficinas, prestadores de serviços, além de oferecer oficinas de vela e mergulho gratuitas. Aconteceram também palestras técnicas de regata e sobre meio ambiente para um público médio de 35 pessoas por evento. O objetivo, segundo o comodoro do Cabanga Iate Clube, Luiz Alexandre de Almeida, “é aproximar a população da cidade ao evento, criando uma nova cultura que desmistifique a vela como um esporte de elite”. A intenção para o próximo ano é que o festival cresça ainda mais com a realização de shows no Marco Zero da cidade.
Este ano as inscrições na regata aumentaram 40% em relação ao ano passado: foram 143 embarcações efetivamente inscritas. Destas, 121 largaram e 112 chegaram em regata ao arquipélago, com bandeiras de 7 países e 13 estados brasileiros. Do Rio de Janeiro vieram 44 veleiros de diversos estados na flotilha formada pelo Cruzeiro da Costa Leste, que partiu com no dia 31 de julho do Yacht Club do Rio de Janeiro, percorreu aproximadamente 1.600 milhas e contou com o apoio de diversos clubes ao longo do percurso.
Mas sem dúvida a grande novidade deste ano foi o Seminário Isaf de Gerenciamento de Regatas, destinado ao treinamento de árbitros internacionais e que formou dois árbitros que atuaram na comissão de regata. Além disso, a competição contou com a presença de Cláudio Ferraz, juiz internacional da ISAF. Medidas como esta dão um aspecto mais técnico e profissional à REFENO, que a cada ano vem contando com uma participação maior dos grandes nomes do iatismo brasileiro como por exemplo, o campeão olímpico Eduardo Penido, que este ano trouxe o Sorsa para a competição.

O espirito de competição e o espírito da REFENO
Depois de uma largada sem vento, atípica na REFENO, um vento leste entrou com bastante intensidade e o mar ficou picado. Problemas com o leme do Sorsa baixaram a velocidade e fizeram com que fosse utilizada uma cana de emergência, pois as soldas da roda de leme estavam se quebrando.
Mesmo assim, o ele foi o quinto barco a chegar em Noronha, fazendo um tempo real de 34h15min05seg, e conquistou o título de campeão da classe IMS, deixando para trás outro cotado como um dos favoritos da classe, o veleiro Maximus, comandado por Hélio Aquino. Em segundo lugar ficou o pernambucano Tomgape, comandado por Cláudio Cardoso, campeão mundial de Hobbie Cat 16 e que teve como tripulante a jovem Roberta Borges, bi-campeã brasileira de Europa.
O Cabanga este ano ficou pequeno para abrigar o paliteiro formado pelos veleiros que aguardavam a partida. Via-se barco de todo o tipo: ligeiros catamarãs, confortáveis barcos de cruzeiros, máquinas de velocidade como o Sorsa, o Máximus e o Resgate, os pesadões de aço, barcos de famílias e entre eles o da família náutica mais famosa do país: os Schürmann.
O Aysso, que pela primeira vez contou com sua tripulação completa (Vilfredo, Heloísa e os filhos David, Pierre, Wilhelm e a pequena Kat) para correr uma regata, está comemorando os 20 anos da primeira volta ao mundo da família. Os Schürmann estiveram em Noronha pela última vez em 84. Para Vilfredo, “Fernando de Noronha se assemelha muito a Ilha de Páscoa, pelo ambiente e pelas pessoas, muito abertas e receptivas”. O Aysso, 32º barco a cruzar a linha de chegada, foi o vencedor da categoria Aço e isso se deve ao perfeito entrosamento da equipe a bordo, afinal esta tripulação é literalmente uma família.
E é este o espírto da REFENO, pois mesmo sendo o maior evento de percurso da vela brasileira, sente-se no ar o clima de confraternização e festa entre os velejadores, já que tudo é desculpa para festa: ainda em Recife, por exemplo, aconteceu um almoço no Pernambuco Iate Clube com os comandantes de onze veleiros projetados por Roberto de Mesquita Barros, o Cabinho, que participou da regata no seu veleiro Fiu, junto com sua esposa Eileen.
Também faz parte do espírito da REFENO o gesto de gente como Luiz Chaves D’Aguiar Soeiro, o Luiz Poesia, do barco Mestre Rosalino. Engenheiro mecânico e elétrico, Luiz Poesia mora há vinte anos no barco e está desenvolvendo um projeto de assistência à regatas onde ajuda quem estiver participando da competição e que tenha alguma problema no barco. No Mestre Rosalino ele leva peças, ferramentas, cabos de aço e até velas e durante o percurso não cobra nada pelos serviços.



Resultados
IMS

Sorsa
Omnicomputer/Tomgape
Bola 7

ORC
Rock’n’Roll
Fantasma
Tembó Guaçú

RGS A
Athena
Errante
Travessia

RGS B
Venestal IV
Triksu
Mar & Sol

RGS C
Justa Causa
Gaivota 7
Tito V

RGS D
Oceano
Karpaleo
Chegado

RGS E
Dys Dobre
Jangadeiro IV
Fantasia

Multicasco A
Mobius
Cat Guruçá

Multicasco B
Odara
Pick-Nick
Mr. Wolff 4

Multicasco C
Ave Rara
Lifeholic
Anakã

Multicasco D
Larissa II
Flordagua

Aberta A
Silence
Cangaceiro
Toatoa no Mar

Aberta B
Baladero
Jamanxim
O Vagabundo

Aço
Aysso
Kanaloa
Lady Eduina

revista Mar & Mar - ed. 39 - 2004

Match Race Brasil – Futuro garantido

Receita básica para o bom resultado de um evento: um produto que desperte o interesse de público e mídia, patrocinadores de peso, organização, participantes de renome e ambiente charmoso. Estes foram os ingredientes que garantiram o sucesso do Match Race Brasil, que aconteceu em Búzios, Ilhabela e, finalmente, Rio de Janeiro.
A idéia da Vela Brasil, empresa de marketing esportivo criando com o único propósito de desenvolver profissionalmente o iatismo, está dando certo, como se pôde comprovar em Ilhabela.
O público era formado, em grande parte, por pessoas q não entendiam nada de vela e que nunca haviam pisado num veleiro antes. E este foi o gancho do evento: popularizar a vela no Brasil.
O Match Race foi patrocinado pela Vivo, American Express e UBS, e conquistou muitos admiradores para o esporte, já que permitiu que “mortais comuns” tivessem a oportunidade de velejar com a “nata” da vela brasileira. Cada barco, com 8 tripulantes, pode levar, a cada regata, 2 convidados, plantando em cada um o gosto pela vela. Assim, depois de uma velejada emocionante num belo Beneteau 40.7, com algumas das maiores “feras” do iatismo, ninguém tinha vontade de sair do barco.
O tenista brasileiro Fernando Meligeni, que prestigiou o evento de Ilhabela velejando com Alan Adler, classificou a experiência como “show de bola”, e completou: “Velejar com feras, sentindo a técnica que a cada manobra pode ser decisiva é emocionante. Depois do tênis, vela é “O” esporte”.
A bordo, a cena lembra um espetáculo de dança. Mas não um balé clássico. Está mais para um balé contemporâneo: os oito tripulantes que se dividem entre Comandante, Tático, Secretária, Proeiro e os responsáveis pelas velas Grande, Genoa e Balão, e Mastro, realizam uma frenética coreografia a cada bordo, para que a manobra seja a mais eficaz possível. Às vezes pode-se ouvir um ou outro grito ou palavrão (ou até vários), mas o mais admirável é, no final, todos se cumprimentarem pelo desempenho na regata, tenha a equipe vencido ou não, porque, como disse o hexacampeão Robert Scheidt, “não importa tanto quem ganha ou não. No final, quem ganha é a vela.” E o que se vê, na verdade, no Match Race Brasil, é um grupo de amigos que , divididos entre 8 equipes, fazem o que mais gostam e sabem: velejar.

As Feras
“De bobo aí, não tem ninguém”. A frase ouvida numa conversa entre espectadores é correta, já que a vela é o esporte que mais proporcionou medalhas olímpicas ao Brasil. Marcos Soares, Torben Grael, André Fonseca, Alan Adler, Alex Welter, Robert Scheidt, João (Joca) Signorini e Gastão Brun são os comandantes das equipes que tripularam os quatro Beneteaus (Odoya, Alucinante, Asbar III e Capim Canela).
O público que assistia às regatas ia aprendendo o que acontecia através da narração com “explicação para leigos” de Ricardo “Kadu” Baggio. Este aspecto didático do evento é importantíssimo para que se entenda como funcionam as disputas num Match Race. Por exemplo, uma boa largada é fundamental para a vitória. Se uma equipe larga mal, dificilmente vai vencer a regata.
Num meio ainda dominado por homens, também houve espaço para as velejadoras. Em cada tripulação a função da secretaria foi desempenhada por mulheres, escolhidas entre atletas que se destacaram em competições nacionais e internacionais, e que são as grandes promessas da vela feminina brasileira.

Patrocinadores felizes Se um dos objetivos da organização era criar um valor para os patrocinadores, ele foi alcançado. UBS, Vivo e Amex estão muito satisfeitos com os resultados.
Para Nelson Cardoso, diretor de marketing e comunicação do UBS, “o ambiente do Match Race é perfeito para o relacionamento com o cliente”. Clientes são convidados a conhecer e participar das regatas, fazendo, então, com que o contato com a empresa se estreite. Além disso, o espírito de equipe, imperativo nas competições, faz com que seja mostrada uma personalidade dos produtos que as empresas querem divulgar.
A Vivo tem como uma de suas linhas estratégicas o patrocínio de eventos de grande visibilidade. Para o presidente da empresa, Francisco Padinha, “o patrocínio faz parte da mentalidade que a empresa deseja mostrar para o público. O retorno é fantástico e a visibilidade da marca e os contatos excelentes”. Ele se diz muito contente com o patrocínio, pos a consolidação da marca, dentro do segmento médio-alto, está sendo alcançada.
Parcerias com high expender events fazem parte da estratégia de alianças da Amex. Com o objetivo de se relacionar com clientes e prospects e fortalecer a marca no segmento, a empresa está investindo no Match Race, já que entende ter os mesmo objetivos da organização do evento, com o incentivo ao esporte. Hélio Magalhães, presidente da American Express no Brasil, vê esta forma de divulgação do esporte como muito inteligente: “A excelente qualidade do evento, organização, primeiro nível de competidores e o esporte em si, têm tudo a ver com o perfil do público Amex”, declara. Segundo Vivan Sprecher, gerente de marketing da empresa, “cria-se uma oportunidade de estar próximo do cliente e proporcionar a ele o uso do cartão como instrumento facilitador”.
Ao que parece, se depender de apoio de patrocinadores, o sucesso do Match Race Brasil tem tudo para continuar, já que as empresas têm interesse em continuar a parceria com o evento em 2004.

revista Velejar e Meio Ambiente - ed. 12 - 2003

21.11.05

Refeno 2003 - Festa em Pernambuco

Imagine que o Paraíso tenha sido descoberto há 500 anos, esteja a apenas 580 km mas que para chegar lá você só vai de veleiro.
É isto o que pensam os cerca de 700 participantes de Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha, organizada pelo Cabanga Iate Clube de Pernambuco.

Tudo é motivo para festa nesta que é a primeira regata oceânica do Brasil. Mas nesta 15ª edição, a desculpa para festejar ainda mais é o aniversário de 500 anos do descobrimento do arquipélago de Fernando de Noronha, templo da natureza para velejadores, mergulhadores, surfistas e adoradores do sol.

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O Skank que perdoe, mas emocionante mesmo é a largada de uma regata. Nesta hora sente-se uma agitação no ar tanto para quem está assistindo e mais ainda para quem está a bordo. Em Recife, começa-se a viver a REFENO quase um mês antes. É curioso ver pessoas comuns, que não entendem nada de vela, comentando e arriscando palpites em ônibus, lojas, bares. Este é um evento de vela já popular na cidade, que participa torcendo para os veleiros pernambucanos.

Em Fernando de Noronha a história não é muito diferente.
Há uma série de fatores que contribuem para que a REFENO seja, dentre todas as provas do circuito náutico, a mais esperada pela população noronhense. “A população fica contando os dias que faltam para os veleiros atracarem aqui. Há uma movimentação intensa durante a regata”, disse o administrador do arquipélago, Edrise Ayres. Ele diz que o turista da competição é diferente daquele que costuma freqüentar a ilha. “São pessoas do mar, que se preocupam com a questão ambiental.”, analisa Ayres. “Além de mexer na economia, a REFENO contribui para o enriquecimento cultural dos moradores locais, pois se trata de uma prova internacional. São muitas pessoas com costumes e gostos diferentes”, afirmou João Paulo Câmara Lins e Mello, coordenador geral do evento.


Números da REFENO

Este ano foram inscritas 103 embarcações, com bandeiras de 6 países estrangeiros como África do Sul, França, Inglaterra, EUA, Espanha e Argentina. Destas, 90 largaram no dia 20 de setembro e 75 chegaram a Fernando de Noronha, ainda participando da regata. Os que sofreram avarias foram rebocados, pelos barcos da marinha que acompanham a competição, para portos mais próximos dos locais em que se encontravam.
O percurso entre Recife e o arquipélago de Fernando de Noronha é de 300 milhas náuticas, ou 545 km.

O estado brasileiro com maior número de barcos inscritos foi o Rio de Janeiro com 26 veleiros, seguido de Pernambuco com 22 e São Paulo com 12.
Os parcipantes foram divididos entre as classes IMS, ORC Clube, RGS (A, B, C, D e E), Aberta A e B (para barcos sem classificação), Multicasco A, B, C e D (divisão por comprimento) e Aço. Por causa do grande número de embarcações e classes, o procedimento de largada dura 50 minutos: primeiro largam os “pesadões” de aço e por fim os rápidos catamarãs.

Economicamente a REFENO é um dos eventos mais rentáveis para a ilha, segundo comerciantes e empresários locais. Cerca de U$ 150 mil são deixados em Fernando de Noronha, tanto por velejadores quanto por seus amigos e familiares que circulam na ilha, durante os sete dias de regata. Já em Recife, calcula-se que em torno de US$ 200 mil sejam injetados na economia da cidade através da regata.


Gente do Mar

A principal característica da REFENO é confraternização. Tanto que existe o Torféu Tartaruga Marinha, para a penúltima embarcação a cruzar a linha de chegada. Apesar de parte dos barcos participantes estar realmente participando de uma competição náutica, e a cada ano o nível técnico dos participantes estar aumentando, a regata, na verdade, é uma grande festa entre amigos. Este ano, cerca de 40% dos barcos inscritos tinham mais de 40 pés.
Pessoas como velejador Gastão Brun, que tinha na tripulação do seu barco, o Forró (monocasco fita azul), Horácio Carabelli Filho, demonstram como o nível técnico e a competitividade na regata aumentaram.
Segundo o Roberto de Barros Mesquita, o Cabinho "a regata, que entrou para o gosto do brasileiro, mudou de espírito, e passou a ser mesmo uma competição".
Mas isto não tira o grande aspecto festivo do evento. Velejadores de todo o país se encontram e trocam figurinhas no píer do Cabanga, nas festas e nos bares.


Pessoas de todos os tipos participam: tem gente que leva o cachorro, tem gente que não quer voar até Fernando de Noronha, tem gente que adora velejar. Histórias do mar de regatistas e cruzeiristas se misturam às expectativas de quem nunca navegou em mar aberto e que escolheu esta regata para a estréia. Mas acima de tudo tem gente curiosa e com muita coragem, porque a experiência de velejar até o arquipélago é mágica e inesquecível. E quem participa quer (e consegue) mesmo é se divertir.

O veleiro Avoante, um Velamar 33, comandado pelo comerciante Nelson Mattos, saiu de Natal para participar da REFENO e demorou 82 horas para chegar em Recife. Mais tempo do que levou para chegar a Fernando de Noronha. O barco já estava sendo chamado de veleiro Boomerang e o comandante de Iô-iô porque retornou a Natal 2 vezes: primeiro foi uma genoa que rasgou, depois o leme quebrou.
O barco era tripulado Lúcia, esposa de Nelson e os amigos Flávio, Lucinha e Pedro. De todos, apenas Flávio já havia feito a travessia. A maior preocupação de Lúcia era com o enjôo, mas depois de 52h20’ todos chegaram sãos, salvos e felicíssimos, pelo 5º lugar na classe RGS D.


Um tipo de tripulante tem causado certa polêmica no meio: crianças pequenas. Alguns defendem a idéia de que levar uma criança num barco pequeno em uma regata noturna é loucura. Mas Karina Hutzler, de 31 anos discorda. Na festa de premiação em Noronha ela recomendou a todos que levassem seus filhos, pois velejar com Marina, sua filha de 1ano e 10 meses, foi uma experiência maravilhosa.
Karina e o marido, Hans Hutzler, 31 anos, consultor em comércio exterior em Recife e com experiência de 25 anos de vela, já estiveram cinco vezes em Noronha, mas decidiram que só voltariam lá com seu próprio barco. Em maio compraram o Delta 26 Aventureiro e equiparam-no para que ficasse mais confortável para a travessia e mais seguro para levar Marina. Cortaram a retranca para a colocação de um bimini e encomendaram uma vela com novo desenho mas sem perder área. Contavam com cintos de segurança para todos, VHF BSC, dois GPS, um Globalstar, 225 litros de água, refeições divididas em geladeiras de isopor para cada dia de viagem, além de muita comida extra.
Marina estava super a vontade a bordo, mas para tão pouca idade, sua história já é bem espantosa: com 33 dias de vida ela foi operada de uma atresia de esôfago e em janeiro último sofreu uma nova cirurgia, agora no coração, por causa de uma CIA - comunicação inter atrial. Muita coisa para alguém tão pequeno.
Para “marinizar” melhor a pequena Marina, que veleja desde os 4 meses, em agosto, o casal resolveu simular uma pequena REFENO: equipou o barco com tudo o que levaria para na regata e tomando o rumo de Fernando de Noronha, 60º, navegou por 150 milhas. Como Marina se mostrou uma boa marinheira, decidiram então que correriam a REFENO 2003 e ela recebeu então seu primeiro troféu: o de tripulante mais jovem.

Já Paulo Saldanha Ventura, comandante do veleiro Curumin, um Main 35 de Recife, acredita que anjos existem e fazem parte da Marinha do Brasil. Seu veleiro perdeu o leme e só conseguiu contato com a marinha através uma ponte pelo rádio com o veleiro Aventureiro. O barco foi socorrido pela corveta Grajaú e durante parte da noite, veleiro e corveta ficaram a deriva. Depois de horas, finalmente fizeram um "empacotamento" do veleiro (quando reboca-se o casco como um todo e não apenas pela proa) e seguiram para Noronha. No dia seguinte, o mestre Santos, da corveta, ajudou na construção de um leme de fortuna para o retorno a Natal. A proa do veleiro ficou destruida, mas a volta ao continente foi garantida, segundo Paulo pelos "anjos da guarda da regata".



E o favorito venceu

A grande expectativa da chegada da REFENO não é exatamente sobre quem ganha em classificação, mas quem chega primeiro a Noronha. Este ano o catamarã bahiano Odara foi o fita azul, com tempo real de 25h30', depois de correr uma regata disputadíssima com o trimarã Ave Rara. Esta é a quarta vez que o Odara, de 49', comandado por Manoel Taboada, o Nelito, participa da REFENO.
O Odara largou bem e fez uma ótima velejada. Segundo Nelito, a vitória deveu-se principalmente à preparação do barco em terra e à cautela: "O objetivo é ganhar dentro do espírito de passeio e esportivo. Fazemos tudo para ganhar, mas sem correr riscos e não forçando o barco ao seu limite".

Catamarãs bahianos parecem ser o suplício na vida dos tripulantes do Ave Rara. Esta é a 6ª REFENO de que participam, são hexacampeões na classe Multicasco B mas até hoje não foram fita azul. E olha que a torcida em Recife é toda deles.
Em 2001 e 2002 perderam para o catamarã Adrenalina Pura, de 62', de George Ehrensberger.

Este ano, depois de largar com 26 minutos de atraso, por problemas com o leme, o Ave Rara teve uma excelente recuperação. Por volta das 19h do sábado ficou lado a lado com o Odara. E assim ficaram os dois até a 1h30 da manhã, quando os pernambucanos conseguiu passaram os bahianos e mantiveram-se a frente até as 9h30 do domingo, 21. Próximo da ponta da Sapata, já em Noronha, estavam novamente aparelhados, mas o vento apertou e o punho do gennaker do Ave Rara rasgou. Resultado: os pernambucanos cruzaram a linha de chegada apenas 9 minutos depois do Odara.
O barco, um Tricia 36, de propriedade de Vicente Gallo e Ruy Amorin é tripulado por Pedro Fazio, José Amâncio, Silvio Amorin, Ruy e Guga Peixoto.
Velejador experiente, Guga, é uma unanimidade na REFENO, tanto pela competência quanto pela polêmica. Fez parte da equipe que atravessou o atlântico em 98, Recife-Lisboa-Recife, já participou oito vezes da REFENO e estava trazendo um veleiro de Miami para correr a regata este ano. O tal veleiro teve problemas e acabou ficando em Fortaleza, e por isso quase Guga não larga. Chegou do aeroporto direto para o barco.
Com o atraso na largada, o público se perguntava se o Ave Rara não largaria.
Segundo Ruy Amorin, "esta foi a primeira vez que a REFENO contou com uma chegada tão emocionante. A regata foi decidida na ponta da Sapata." Segundo ele apesar das boas condições de vento e tempo, o que falta ao Ave Rara é patrocínio, pois se o barco estivesse melhor equipado, problemas como os que eles tiveram não existiriam.



Patrocínios

Dinheiro é sempre uma solução. A falta dele é problema.
Parecerias com empresas são necessárias tanto para se organizar um evento do porte da REFENO quanto para se participar dele. A inscrição por tripulante custou este ano R$ 180,00 já incluida a discutida taxa de permanência em FN. Considere ainda o custo de preparação de uma embarcação: equipamentos, velas, manutenção, alimentação, uniformes, etc.

Segundo João Paulo Câmara Lins e Mello, o J.P., coordenador da REFENO desde 2002, o custo do evento este ano ficou em torno de R$ 350 mil. Na sua opinião, a dificuldade para a viabilização do evento se deu por causa da instabilidade econômica do país. Apesar de ter se antecipado na organização, a coordenção só conseguiu a confirmação de alguns dos patrocinadores após a votação da lei da previdência.
Ele também imputa à situação político-econômica mundial o número reduzido de embarcações estrangeiras.

Já para os barcos, vale a persistência. O veleiro Avoante, por exemplo conseguiu, através de conhecimentos pessoais os uniformes e a alimentação. As meninas do Drifter, orçaram o projeto para ir a REFENO em R$ 50 mil, enxugaram custos e chegaram a R$ 35 mil. Destes, 40% foram patrocinados e o restante saiu do próprio bolso.

Uma outra forma de viabilizar a entrada na regata é através do charter. Pode ser uma boa experiência ou uma "bad trip" já que a convivência a bordo pode vir a se tornar uma situação delicada.
O valor para uma vaga num barco que faz charter chega a R$ 1.400,00, ida e volta.
Segundo João Eudes Nunes, de Brasília, seu dinheiro foi muito bem empregado. Ele, que nunca havia velejado em alto mar, participou da regata no veleiro Jamaluce e adorou.
Mas é bom lembrar que no meio do oceano, num espaço pequeno e com pessoas desconhecidas, o risco de um conflito é grande.


Luluzinhas no clube do Bolinha

"Mulher em barco dá azar". Esta é uma brincadeira de humor duvidoso que corre no meio.
Bom, se assim fosse o veleiro Drifter, comandado por Christina Fracari, não teria nem chegado a Recife. Mas chegou a Fernando de Noronha!
Com uma tripulação formada por oito mulheres, o Drifter, sem sombra de dúvida era o barco mais comentado desta 15ª REFENO. Mulher chama atenção em qualquer lugar, ainda mais num meio dominado por homens como é o náutico. Além do charme, beleza, delicadeza das meninas ainda tem o aspecto de estarem exercendo uma atividade também de força.
A história das meninas começou no Natal do ano passado quando Christina e sua cunhada Liliana tiveram a idéia de correr a REFENO com uma tripulação feminina. Velejadoras experientes do Lago Paranoá, em Brasília, convidaram então outras amigas e adversárias de raia para formar a tripulação. Com idades que variando entre 27 a 54 anos, vieram então Celina, Vania, Iara, Tatiana, Rossana e Sandra. Todas velejam: de microtoner, de Delta 21, windsurf, snipe, 470, star... Pode escolher. Tem médica, advogada, arquiteta, especialista em marketing, contadora, agrônoma, engenheira civil. Apesar de nem todas terem velejado em mar aberto, estavam preparadas para a aventura: depois que decidiram correr a regata, todas tiraram a carta de mestre. Exigência de equipe: "não basta saber velejar, tem que saber navegar". E elas sabem. Em Brasília, competem em nível de igualdade com os próprios maridos.
Sem dúvida este era o barco que a tripulação mais nivelada no aspecto de habilitação e com todas as cartas náuticas necessárias desde Salvador, já que o barco foi alugado lá.
Os maridos, a princípio, torceram um pouco os narizes, mas acabaram concordando "porque era um barco só de mulheres".
Contaram com a ajuda de um treinador, tiveram personal trainer que cuidou do condicionamento físico e tinham 4 GPS a bordo. Os uniformes foram cedidos pelo Iate Clube de Brasília, onde todas velejam.
Segundo elas, fizeram uma regata tranquila por terem estudado muito o trajeto, não tiveram acidentes durante o percurso e tudo ocorreu melhor do que o esperado. Tudo bem, nem tudo são flores num barco de meninas: todas enjoaram... algumas mais outras menos. Por um problema na instalação elétrica do barco, que já existia desde Salvador, também ficaram sem motor e sem bateria. Isso significa, sem rádio também. Chegaram em Fernando de Noronha com um rádio de mão quase morrendo. Poderiam ter pedido ajuda, desistido, mas foram até o fim.
Assim como o estigma de mulher no volante, elas sentem que os homens ficam mais atentos aos erros delas para poderem falar depois e sentem falta dos parabéns quando ganham. Mas isto não gera nenhum atrito.
Para a tripulação, o maior desafio era a convivência a bordo: consciência de que numa condição anormal de temperatura, pressão e espaço, os aborrecimentos podem vir mais depressa. Para elas, o stress técnico acontece mais entre os homens: entre mulheres o stress pode ocorrer em atitudes. Nada disso ocorreu. No final, acharam gratificante o espírito de união da equipe e se surpreenderam com a própria "aventura do desconhecido". Mas confessaram que só sentiram falta dos homens na hora de adriçar a grande.


Futuro da REFENO

A preparação de um evento como a REFENO começa seis meses antes. Elaboração de plano estratégico, prospecção de patrocinadores, busca de parcerias, confecção de kits, tudo tem que ser feito com antecedência.

Este ano a regata contou com o patrocínio da EMBRATUR, CELPE (Companhia Energética de Pernambuco), PETROBRAS, Baterias Moura, além de parcerias com AGEMAR, OPTLAMP, TRIP Linhas Aéreas, Netuno Pescados, CHESF (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), Hospital Esperança, além de contar com o apoio da Marinha do Brasil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Governo do Estado, Prefeitura de Recife, Capitania dos Portos de Pernambuco, Porto de Recife, que libera a área do porto para a largada da regata e da Pernambuco Pilot que deixa de cobrar os custos de manobra dos navios da área do porto.
A medida que eram captados os recursos, a programação do evento ia sendo definida.

A idéia para o próximo ano é popularizar ainda mais o evento e levar para o Terminal de Passageiros do Porto de Recife o quer será o Festival REFENO. "A regata assim passará a ser o principal evento dentro do Festival. Palestras, simpósios, feira náutica, shows, serão abertos a população o que fará com que mais pessoas passem a se interessar pelo esporte", J.P. Segundo ele, a REFENO é o grande alavancador das flotilha do Nordeste do país. A flotilha de Pernambuco cresceu 150% nos últimos 3 anos por causa da regata e a idéia e que com a sua maior divulgação este crescimento continue ocorrendo.

revista Velejar e Meio Ambiente - ed. 12 - 2003

Fernando de Noronha é azul




Quem vai a Fernando de Noronha não deve esperar encontrar super resorts e hotéis de luxo. A ilha é cara sim, mas a maior parte das as acomodações são muito simples apesar dos preços. A classificação das hospedarias domiciliares (porque se encontram no mesmo lugar onde mora o proprietário) é feita pela EMBRATUR não por estrelas, mas sim por Golfinhos (isto é a cara de Noronha!) . Para se ter uma idéia, uma pessoa irá pagar no mínimo R$ 65,00 por uma diária, com café da manhã, em uma hospedaria simples. As construções, em sua maioria, são feitas de madeira, mas os apartamentos contam com frigobar, ar condicionado ou ventilador. Algumas possuem TV, mas quem vai querer assistir ao Jornal Nacional ou ao drama da novela das oito enquanto estiver no paraíso? No máximo, você irá querer ver os clips ecológicos sobre a ilha da "emissora" local, a TV Golfinho, mas aí é o melhor conhecer os lugares ao vivo.
Outra "curiosidade" sobre preços praticados em Noronha é que quase nada custa menos de R$ 2,00. Um refrigerante, uma cerveja em lata, a passagem do ônibus que circula pela ilha... Tanto que carinhosamente a "moeda local" é chamada de Noronha, que equivale a R$ 2,00. Prepare-se para pagar pelo menos R$ 80,00 pela locação diária de um buggy e R$ 3,00 pelo litro da gasolina comum!
Já a comida não é tão cara. Por R$ 7,00, no Restaurante do Biu, você come tudo o que conseguir. Mas se preferir um ambiente mais requintado, na Tratoria Di Morena, uma deliciosa pasta com molho de lagosta e 1/2 garrafa de vinho sai por menos de R$ 40,00.
Mas não se deixe impressionar por estes dados. Atualmente, com o dólar nas alturas, é muuuiiito mais barato ir para Fernando de Noronha do que prá qualquer lugar do Caribe, com a grande vantagem que todo mundo fala português, o lugar é limpo, bem cuidado, lindo e você é extremamente bem recebido. É o Brasil fora do Brasil.
O mergulho é a atração principal em Noronha, mas você não precisa ser nenhum grande "expert" na atividade para ver tartarugas, arraias, barracudas e peixinhos coloridos: com um snorkel e máscara você faz a festa em quase qualquer praia da ilha. A praia do Sancho, eleita recentemente como a mais bela do país, é um lugar bom para tudo: lagartear no sol, caminhar, nadar, praticar snorkel... O acesso é radical: uma escada de ferro, totalmente na vertical, instalada no meio das rochas. A praia da Atalaia é um caso constatado de preservação: só é permitido um máximo de 100 pessoas por dia, divididas em grupos e só se fica na água por 20 minutos. Tudo isto controlado por fiscais do Ibama que monitoram o mergulho nas águas desse piscinão, habitat de moréias, filhotes de tubarão e pequenos polvos.
A praia do Leão é tão linda que só vendo ao vivo para entender. Lá é o local de desova das tartarugas marinhas. Já a Baía do Sueste é um dos pontos de descanso e alimentação de tartarugas marinhas e também lar de arraias e tubarões. De dezembro a março, o point do surf fica entre a Cacimba do Padre, praia do Meio, da Conceição e Boldró.
Nem pense em pescar ou fazer caça submarina na Ilha: é totalmente proibido. Fiscais do IBAMA estão de olho em toda parte, e se um engraçadinho tentar, corre o risco de se dar muito mal, podendo até ser preso e tendo que “importar” um advogado do continente.
Fernando de Noronha é o lar dos Golfinhos-Rotadores e eles podem ser observados do mirante de 70 m de altura, na Enseada do Golfinhos. De perder o fôlego!
À noite as opções não são muitas, mas são bem intensas.Toda noite, são realizadas palestras sobre o ecossistema local na sede do IBAMA. Depois, o agito fica por conta do forró no Bar do Cachorro: literalmente todo mundo vai prá lá. E se você agüenta um pouco mais, estique na boate Inferninho (demais, não?), com reggae e world music.
As atrações de Noronha são muitas e você sabe que tudo que é bom, dura pouco. Mas se tiver a oportunidade, vá! O único perigo é não querer voltar mais, mas saiba que para ficar lá ou você é funcionário público transferido ou se casa com um local. Ficou tentado?

Jornal Imprensa Livre - São Sebastião out/2002

Fernando de Noronha: paraíso preservado.



Decididamente não existe uma água como a Fernando de Noronha na costa brasileira. Se você pensa que só vai encontrar aquela água de folheto de viagem, que vai do totalmente transparente ao azul turquesa somente no mar do Caribe, vai se maravilhar ao deparar com as praias deste arquipélago brasileiro.
Distante 545 km da costa do estado de Pernambuco, as ilhas, de origem vulcânica, são hoje o destino dos aficcionados em turismo ecológico e mergulho. Na verdade, somente a ilha principal é habitada e é nela onde estão localizadas as praias que podem ser frequentadas tanto por turistas quanto pelos moradores.
Na escola aprendemos sobre o arquipélago através dos livros de história e geografia, quando estudávamos sobre os territórios federais do Brasil e ouvíamos falar do distante arquipélago que no passado foi palco de disputas entre holandeses, franceses e portugueses. Lembra da Vila de Nossa Senhora dos Remédios? E do Forte? Que na ilha principal existia uma prisão onde condenados, como a legenda da política pernambucana, deputado Miguel Arraes, cumpriam pena? Fico imaginando que o pior lugar do mundo para um preso é Fernando de Noronha: um lugar paradisíaco, com paisagens incríveis e o pobre do condenado obrigado a ficar entre quatro paredes...
A descoberta do arquipélago é atribuída a Américo Vespúcio (aparentemente uma figurinha fácil no Brasil na época dos descobrimentos), que em 1503 participou da segunda expedição exploratória às costas brasileiras, comandada por Gonçalo Coelho e financiada pelo fidalgo português Fernão de Loronha, cristão novo, arrendatário de extração de Pau-Brasil. Pela primeira carta de Vespúcio sobre as ilhas pôde-se imaginar a grandiosidade da vida que palpitava, em meio ao azul turquesa profundo, penhascos, árvores, ninhos de aves, bando de tartarugas, peixes, golfinhos... A descoberta gerou a primeira Capitania Hereditária do Brasil, em 1504, doada a Fernão de Loronha. No entanto, depois disso ela permaneceu abandonada à disposição de outros navegadores que exploravam os oceanos, naquela época de descobertas. Foi aí o início da exploração predatória do meio ambiente... Para as naus levava-se água, lenha, ovos e tartarugas, peixes, frutas...
Hoje em dia a exploração não existe mais porque para começar água é um bem escasso na ilha: o abastecimento é feito principalmente através de água da chuva coletada e de córregos perenes, que surgem durante a época das chuvas (de fevereiro a agosto) e através de água marinha dessanilizada.
Além do mais, setenta por cento do arquipélago faz parte do Parque Nacional Marinho, administrado pelo IBAMA e os trinta por cento restantes da ilha principal fazem parte de uma APA - Área de Preservação Ambiental. Por isso existem restrições impostas por lei, que visam não comprometer o equilíbrio do ecossistema.
A ilha conta com uma população fixa de 2.100 pessoas e o número de turistas é controlado a partir da quantidade de passageiros que chegam à ilha nos 5 vôos diários (a partir de Recife e Natal): 250 pessoas.
Claro que em certas ocasiões, como na regata Recife-Fernando de Noronha, este número pode pular para até 1.000 pessoas, mas é um caso único e mesmo assim, bem controlado principalmente através da Taxa de Preservação Ambiental (TPA) que é paga quando se sai da ilha. O valor é salgado: R$ 21,28 por dia de permanência na Ilha. E não tem como escapar.
O esgoto de Fernando de Noronha é tratado através do sistema de decantação e a maior parte das habitações utiliza ainda o sistema de fossas assépticas. Por toda parte vê-se inúmeras lixeiras e não se encontra lixo jogado no chão: chega a ser espantoso quando lembramos que o arquipélago faz parte do Brasil. As praias, trilhas e estradas são bem sinalizadas, conservadas e limpas. Percebe-se que a população tem um nível de consciência sobre preservação ambiental muito acima da média brasileira, principalmente quando se compara o lugar com outras cidades do norte e nordeste. Afinal, em nenhuma descrição de Paraíso ouve-se falar de lixo e degradação ambiental. E conforme disse Américo Vespúcio: "o Paraíso é aqui".


Jornal Imprensa Livre - São Sebastião out/2002

A arte exuberante de Francisco Brennand


Ouvi falar em Francisco Brennand pela primeira vez através de uma professora na faculdade. A grandiosidade, o exotismo, o erotismo da arte deste ceramista eram descritos por ela de uma forma tão entusiasmada, que a mensagem filtrada era: "não saia de Recife sem visitar o museu de Brennand".

Para quem nunca soube da existência deste lugar, a surpresa quando se chega à fazenda onde está o museu deve ser estarrecedora. Eu havia me preparado antes lendo sobre o artista e vendo algumas fotos do lugar. Mas nada havia traduzido exatamente a realidade.

Depois de um ônibus e um táxi, chegamos à área de 15 mil m², onde antes existia a fábrica de tijolos e telhas pertencente à família Brennand, que hoje abriga a oficina, o museu e o centro de aprendizagem de cerâmica. Jardins adornados com seres e animais mitológicos, ovos míticos e guardiões de cerâmica enormes e pesados, lagos de desenhos sinuosos enfeitados com figuras zoomorfas muito exóticas e o prédio onde está exposto um sem-número de peças inquietantes, curiosas, que despertam as sensações mais diversas no visitante.

Não é um lugar comum. É diferente de qualquer exposição de cerâmica que já se tenha visto por aqui, portanto é aconselhável ler um pouco sobre o artista e o lugar antes de conhecer. As peças enormes apresentam um forte apelo erótico, com formas exageradas e cores fortes. Leveza é uma palavra que decididamente não combina com este lugar.


A visão muito particular do artista está representada no grande painel do jardim principal, logo na entrada. Não só aí, mas em todas as peças, esculturas, quadros, pode-se notar a efervescência da mente de Brennand.

Dentro da área coberta do museu encontram-se os fornos onde eram queimadas as peças da antiga fábrica de cerâmica, que hoje servem como novos ambientes de exposição.

Mas não é apenas pela arte que o nome de Brennand é reconhecido. Ele é um pintor que se utiliza do suporte cerâmico para a confecção dos seus painéis de pedras cerâmicas padronizadas.
O controle do processo de produção da pedras cerâmicas Brennand está presente em todas as etapas, desde a seleção dos vários tipos de argila até a pintura artesanal, realizada pelos vários artesãos da fábrica, passando pela prensagem e secagem. No final do processo, as pedras passam por uma nova queima para preservar todas as características originais do desenho do artista e garantir a assinatura de Francisco Brennand em cada uma delas. Devido a este processo semi-artesanal, os ladrilhos cerâmicos são sempre diferentes uns dos outros, levemente irregulares nas formas e tonalidades.

Após sair do museu resolvemos fazer um caminho diferente para voltarmos a Recife. Fomos informadas que para pegar o ônibus de volta ("que não ficava longe"), teríamos que atravessar um rio. Para a travessia utilizaríamos uma "balsa". Imediatamente me lembrei da Valda e da FB-18. Mas era bem diferente...


Andamos à pé por uns 5 km para chegar ao ônibus, mas no caminho encontramos uma enorme fábrica Brennand. Não pudemos visitá-la e, curiosamente, nem fotografar sua fachada pois a segurança não permitia.
Muitas vezes, depois de visitar o museu e conhecer de perto sua obra, andando pela cidade podemos reconhecer em um prédio um painel de Brennand e enxergamos então com outros olhos mais uma das marcas características de Recife.


Biografia

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennad nasceu em 1927 em Recife, Pernambuco. Estudou pintura e aos 20 anos já conquistou o 1º Prêmio no Salão de Pintura do Museu do Estado de Pernambuco. Viajou a Paris, Bélgica, Suíça, Portugal e Espanha, onde se impressionou tanto com a obra de Gaudí que acabou influenciado por ela. Em 1953 fez estágio numa fábrica de faiança, na Itália, para aperfeiçoar seu conhecimento na arte cerâmica.
De volta ao Brasil, trabalhou intensamente e realizou várias exposições de pintura e cerâmica em todo o país. Executou murais em vários edifícios no Recife e no exterior.

Em 1971 começou a reformar uma velha fábrica de tijolos e telhas fundada pelo seu pai, com cerca de 10.000m2 de área coberta e transformando-a no espaço místico e mágico que até hoje é recriado pela sua inquietação de artista.
Em 1993, Francisco Brennand recebeu o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, outorgado pela OEA - Washington/USA, pelo conjunto e singularidade do seu trabalho.

Onde fica
No bairro da Várzea. Acesso pela Av. Caxangá. Se for de ônibus, a partir desta avenida deve-se tomar uma táxi para chegar ao museu.

Jornal Imprensa Livre - São Sebastião out/2002